Todos os anos, setembro chega às estradas brasileiras com uma cor: o amarelo. Desde 2013, quando a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) lançou a campanha com apoio do Conselho Federal de Medicina, o Setembro Amarelo se tornou o principal movimento nacional de conscientização sobre saúde mental e prevenção ao suicídio. Em 2026, o mote da campanha é direto: “Se precisar, peça ajuda!”
Para o Grupo Apisul, que cuida da segurança de quem transporta cargas pelo Brasil há mais de quatro décadas, esse tema não é distante da operação diária. Pelo contrário: está no centro dela. Quem vive na estrada enfrenta uma rotina que testa o corpo e a mente todos os dias e cuidar da mente de quem dirige é, também, cuidar da segurança de todos que compartilham a via.
Por que o Setembro Amarelo importa para o setor de transporte
Os números nacionais ajudam a dimensionar o problema. Segundo dados da campanha Setembro Amarelo, o Brasil registra cerca de 14 mil suicídios por ano, uma média de 38 por dia e 96,8% desses casos estão associados a algum transtorno mental que poderia ter sido tratado a tempo. A taxa entre homens (12,6 a cada 100 mil habitantes) é mais que o dobro da taxa entre mulheres (5,4 a cada 100 mil), um dado que pesa especialmente sobre um setor historicamente masculino como o transporte rodoviário de cargas.
Isso não significa que a profissão “cause” o problema, mas ajuda a explicar por que o tema merece atenção redobrada de quem gerencia frotas e cuida de motoristas: fatores de risco já reconhecidos para a saúde mental, como isolamento social, privação de sono e rotina de trabalho intensa, fazem parte do dia a dia de quem vive na estrada.
A rotina na estrada e os riscos silenciosos para a saúde mental
Um estudo brasileiro sobre saúde mental no transporte rodoviário de cargas ajuda a colocar números nessa realidade. Entre os motoristas entrevistados, 26,7% trabalham 12 horas por dia e 43% trabalham os sete dias da semana, alguns relataram apenas um dia de folga por mês, ou nenhum. A média de sono ficou em 6h29, abaixo do recomendado, e 43,3% apresentaram sinais de sonolência diurna excessiva. Quase metade (45,8%) relatou ter vivido um evento estressante no trabalho recentemente.
O mesmo estudo aponta um dado que chama atenção: ganhos financeiros maiores estiveram associados a um menor senso de autoeficácia entre os motoristas pesquisados, como se o aumento de renda exigisse, em troca, um sacrifício silencioso da própria saúde. Isolamento, distância da família e semanas inteiras longe de casa completam o quadro. É uma combinação que, mês após mês, vai se acumulando e que, sem espaço para conversa, tende a aparecer como cansaço constante, irritabilidade ou uma tristeza que não passa.
Saúde mental também é segurança no trânsito
Esse acúmulo emocional não fica restrito à vida pessoal do motorista: ele chega ao volante. Concentração, tempo de reação e capacidade de decisão são recursos mentais e o peso emocional consome esses mesmos recursos. Dirigir em estado de ansiedade intensa, raiva ou tristeza profunda compromete o foco e os reflexos de forma comparável ao efeito do álcool. Por isso, cuidar da saúde mental de quem dirige deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar corporativo para se tornar parte da própria gestão de risco de uma frota.
É essa lógica que orienta programas como o PAZ 5.0 (Programa Acidente Zero), do Grupo Apisul em parceria com a Multisat: usar tecnologia e proximidade para identificar sinais de risco antes que eles virem acidente. Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, motoristas orientados pela Base PAZ registraram uma redução de 42% nos excessos de velocidade, um indício de como o acompanhamento humano, e não apenas o monitoramento técnico, muda comportamento na estrada. O programa também mapeia mais de 25 trechos de rodovia como áreas de risco e conta com o Bino, assistente virtual que atende motoristas pelo WhatsApp e resolve, em média, 86% dos atendimentos sem precisar de um operador humano, muitas vezes, a porta de
entrada mais simples para quem precisa de orientação, ou só de ser ouvido.
O que isso significa para quem gerencia uma frota
Para transportadoras e embarcadores, o tema tem efeito direto na operação: motoristas que dirigem cansados, ansiosos ou emocionalmente esgotados representam risco maior de acidente, de multa, de dano à carga e de afastamento por doença. Investir em prevenção, capacitação de líderes, canais de escuta, jornadas de trabalho equilibradas e parceria com programas de gerenciamento de risco, não é custo, é parte da mesma lógica que já orienta a gestão de manutenção de frota e a conformidade com a legislação de trânsito: o que se previne não vira sinistro. Empresas que tratam segurança e saúde mental como uma coisa só tendem a ver reflexo em índices de sinistralidade, rotatividade e produtividade, ainda que o primeiro motivo para agir continue sendo, sempre, o cuidado com a vida de quem trabalha.
Sinais de alerta que merecem atenção
Reconhecer um problema de saúde mental antes que ele se agrave é, em grande parte, uma questão de prestar atenção aos sinais, nos outros e em si mesmo. Alguns dos mais comuns:
• Cansaço constante, mesmo depois de dormir ou descansar
• Irritabilidade fora do padrão, sem uma causa clara
• Tristeza prolongada, que não melhora com o tempo
• Isolamento, evitar contato com colegas, amigos ou família
• Perda de interesse em atividades que antes traziam satisfação
Nenhum desses sinais, isoladamente, é motivo de alarme. Mas quando se repetem ou se combinam, valem uma conversa, com um colega, com a empresa ou com um profissional de saúde. Pedir ajuda não é fraqueza: é, como reforça a própria campanha nacional, um ato de coragem e de cuidado com a vida.
Como buscar ajuda
Quem precisa de apoio imediato pode contar com o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece acolhimento emocional gratuito, sigiloso e disponível 24 horas por dia, todos os dias do ano, por telefone (188), chat ou e-mail, em cvv.org.br. Também vale procurar o RH ou a área de gestão de pessoas da empresa, muitas das quais já oferecem apoio psicológico como parte dos seus benefícios, e buscar orientação de um psicólogo ou psiquiatra sempre que os sinais persistirem.
Para transportadoras e gestores de frota, o convite é para ir além da escuta pontual: criar canais reais de conversa, capacitar líderes para reconhecer sinais de alerta em suas equipes e tratar a saúde mental como parte da política de segurança da operação, ao lado da manutenção de veículos, da capacitação técnica e do cumprimento da jornada de trabalho.

Neste Setembro Amarelo, o convite do Grupo Apisul é simples: preste atenção em quem está ao seu lado, no escritório, na garagem ou na estrada. Um comentário, uma pergunta genuína ou um ‘como você está?’ podem ser o primeiro passo de uma conversa que muda tudo. Na estrada e fora dela, ninguém precisa enfrentar tudo sozinho.

